quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Dura realidade figurada



Ultimamente tenho andado a esmo e, num dia muito nublado, acabei tropeçando e caindo em mim. Não diria que foi a coisa mais agradável dos últimos tempos, pois não foi. A queda nunca teve fim, fiquei suspensa, paralela a algo espelhado mas ao mesmo tempo translúcido. Não era agradável mesmo. A imagem refletida estava parada e era clara e obviamente a minha, mas com falhas largas e não suficientemente espaçadas que maculavam a integridade da figura, então foi basicamente por traços marcantes que me reconheci.

Eu não era obrigada a ficar ali, olhando tudo com muito cuidado e minúcia, porém uma mania minha é observar os detalhes. Os olhos foram os primeiros da minha lista de análise. Congelados e sem brilho, não me diziam nada e eu tambem nada perguntei. Os punhos estavam cruzados, sofrendo a leve ação da gravidade, e as mãos estavam semi-fechadas. Meu olhar captou e logo se desinteressou pelos pés, que estavam em posição de passada, como no meio de uma caminhada. Não era nada que eu não visse todos os dias num espelho, então só me restou tentar achar algum sentido nas falhas.

Percebi que em algumas havia apenas o vazio, um buraco sem fundo que não tinha sentido, mas na maioria eu consegui ver rostos, objetos, palavras... Tudo muito conhecido, muito amado e sem conexões. Todos aparecendo meio esfumados por trás da imagem, nas partes transparentes. Aquilo com certeza me disse muito e, como Sherlock, juntei todas as pistas. O que me mantia pendendo sobre o tal espelho eram certamente fios de ignorância: pois, ao entender, eles cederam e eu realmente caí. Foi ruim e doloroso, mais desagradável do que ficar suspensa.

Assim que pude levantei-me e saí de lá. Infelizmente não é algo que consegui apagar da minha memória ainda por conta do corriqueiro acesso de lembranças ruins nos meus sonhos. Por outro lado, felizmente passo a maior parte do tempo acordada e posso direcionar meus pensamentos (ou pelo menos tentar).



Por enquanto é apenas metáfora. A história real não pode ser imposta, e sim contada a quem realmente queira saber.